terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O Chef às margens do Douro


Italianos a falar com as mãos,  russos despropositados, holandeses e alemães barulhentos, espanhóis da Galiza ou galegos de Espanha, ou apenas galegos, como se queira, ingleses e irlandeses branquelas roseados, franceses espantados com um douro charmoso e, quiçá, a pedir meças ao seu Sena, orientais perseguidores de  bandeirinhas coloridas dependuradas de uma qualquer antena telescópica e portugueses em clara minoria neste concurso de etnicidades, o Chef, figura central e única da minha foto, alheio à multidão, recolhido em si, repousa e saboreia a volúpia do charuto e do conhaque, em clara contradição com a geografia dos odores e dos sabores.                                                                                                                                            
Entre o último almoço servido e o início dos petiscos vespertinos antes do jantar que se há de comer tarde, nesta tarde de um Outubro solarengo na Ribeira, a multidão  de gente e linguajares  tão  diversos clamará pelo regresso do Chef  à sua cozinha.                                         

Não, não é Havana.  Só no Porto se pode estar  assim às margens do Douro. 

Jacinto Lourenço  



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dia Mundial da Rádio - Incontornável Rádio




Nasci e cresci na era da televisão.  A emissão começava às sete da tarde e terminava às onze da noite. Pelo meio haviam ainda dois ou três interlúdios musicais onde só se via uma imagem qualquer, fixa, acompanhada por uma música de fundo. Nunca percebi muito bem o porquê desses interlúdios mas presumo que a programação devia ser muito diminuta e não dava para as quatro horas de emissão diárias.  Ou seja, tudo resumido, aquilo daria para aí umas duas horas de emissão com programação normal.

Estávamos no tempo em que os telejornais só duravam meia hora... E do Super-Rato  e  mais dois ou três personagens de desenhos animados que ainda hoje fazem parte do meu imaginário infantil. Festa, mesmo, na terra onde passei parte da minha infância,  eram as transmissões de corridas de touros ou os jogos da selecção nacional de futebol ou os dos clubes grandes de então, que são os mesmos grandes de hoje, quando jogavam para as competições europeias. De resto, tirando os dias de semana e sábados à noite, só havia televisão durante mais horas ao domingo mas, mesmo assim, só a partir do meio da tarde.  Pouco a pouco, a televisão  lá foi  evoluindo, ou (in)voluindo, para aquilo que é hoje. A questão é que aquilo que a televisão é hoje tem muito pouco de atractivo. 

 Apesar de lhe vaticinarem vida curta,  mercê do aparecimento da TV, o que pontuava a vida do povo, pelo menos na província,  era a rádio. Era a rádio que as pessoas  ouviam, já que, com excepção de uma ou outra família mais rica e de alguns cafés, mais ninguém possuía televisão privada em  casa. Era um luxo ainda incomportável para a época e  só o 25 de Abril de 1974 modificaria esse estatuto e daria abertura para o começo da vulgarização da televisão vista em casa.  Telefonia, sim, muita gente tinha, embora um trabalhador assalariado tivesse que amealhar durante algum tempo para comprar uma telefonia ou, em alternativa, pagá-la a letras durante um ou dois anos.

   A minha geração foi porventura a última a ter a marca distintiva da rádio de forma bem vincada na sua vivência. Era a rádio que dava sempre os relatos da bola e que concitava as atenções dos homens e rapazes ao domingo à tarde ( sim, os jogos realizavam-se todos, e sempre, ao domingo à tarde ). Para os mais velhos, e mais ou menos politizados, era também a rádio que trazia as notícias que não passavam no crivo da censura em Portugal. Nas ondas curtas os mais velhos e mais politizados sintonizavam a Rádio-Moscovo e a Rádio-Portugal livre. Tudo muito em surdina, tudo muito baixinho, que as paredes, nesse tempo, tinham mesmo ouvidos e muitas pessoas foram delatados à GNR local, por vizinhos ou "amigos" ( Portugal foi sempre, afinal, mais do que se pensa ou diz, um país de "bufos" )  por escutarem esses programas clandestinamente sendo depois presos e sujeitos ao respectivo interrogatório no 'Posto' e,  provavelmente,  se ficasse só por aí,  a uns "afagos" dos guardas...

Alguns programas da rádio ficaram para a história: O Serão para Trabalhadores, da FNAT, (actual Inatel) os Parodiantes de Lisboa, ou a primeira rádio-novela em Portugal: "Simplesmente Maria", que deu brado.

Em minha casa, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60, mas houve, tanto quanto me lembro, sempre uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a nossa ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha. Talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, normalmente ligado na Antena 1.  Não me agradam  estações de rádio sem gente dentro, que só passam música durante horas a fio, ( com uma rara excepção de grande qualidade ); bem sei que poupam em recursos humanos, mas para isso, para ouvir apenas música, tenho outros suportes mais modernos. Rádio é outra coisa diferente.

 Gosto de uma rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de bombardeio noticioso. Uma rádio que não faz das notícias um repetitivo "enchimento de chouriços". Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou "floreados" bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos populacionais. Depois é só escolher  o que mais me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas como companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho. Outras vezes posso simplesmente colocar uma música do meu agrado em fundo e assim vou embalado pelo som.

Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia, a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc.  É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo "desligo-me" sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida sem eu dar  conta. 

Sem rádio por perto, a minha vida seria  um pouco mais insonsa.   Entre a televisão, onde praticamente só vejo um ou outro telejornal e programação que coloco previamente a gravar, e a rádio, sem dúvida que prefiro a rádio, salvo quando a imagem se me impõe inevitavelmente.

Porque é que eu me decidi hoje a reflectir sobre este tema ? Primeiro porque se celebra, precisamente hoje, o DIA MUNDIAL DA RÁDIO, depois,  porque tendo sido  radialista amador durante uns bons anos, quer escrevendo textos quer fazendo a produção e locução  de programas, conheço muito bem qual o poder de penetração da rádio e a sua capacidade para poder chegar a lugares, impossíveis para outros meios. Depois porque sou um verdadeiro adepto radiofónico e da magia que se solta da 'caixa' todos os dias a qualquer hora e que continua a ter a capacidade de me surpreender. É evidente que sou muito criterioso na rádio que ouço. Em primeiro lugar, nas minhas preferências, está a Antena 1, companhia de muitas horas, mas também gosto da Antena 2, da Antena 3, da  TSF, da Rádio Smooth ou da RFM.  Depende muito do momento ou da programação.

Mas hoje, quando se celebra o DIA MUNDIAL DA RÁDIO, é também bom lembrar que, há uns anos atrás, quando a televisão se começou a impor,  muitos anteviam a morte da rádio. Tal como continuaram a vê-la, aliás, no advento de tantos gadgets e suportes capazes de armazenar e reproduzir som e imagem ou até mesmo na chegada da rádio exclusivamente transmitida via internet . Apesar disso, a velha Rádio cá continua, a adaptar-se aos tempos e à tecnologia e a evoluir na directa proporção em que a Televisão agoniza pese embora a imensidão dos recursos tecnológicos de visualização que esta tem ao seu dispor e a que a Rádio não pode deitar mão, por razões óbvias, e ainda bem, pois perderia, quanto a mim, todo o seu encanto.

É também bom lembrar, neste DIA MUNDIAL DA RÁDIO, que em Portugal se faz muito boa rádio, de excelência mesmo, a qualquer hora, do dia ou da noite, todos os dias. 



Jacinto Lourenço

quarta-feira, 22 de junho de 2016



Fui verificar a data do último texto que tinha publicado neste Blogue e fiquei surpreendido !  Dezembro de 2015 !!  Meu Deus, tanta coisa que já aconteceu em seis meses, foi o que pensei. 

     Não tenho vindo até aqui por manifesta falta de tempo. Actividades académicas não têm permitido uma maior assiduidade. Tive que colocar de lado muitas coisas que gostava de fazer e para as quais não tenho agora tempo. O tempo parece escorrer-me por entre os dedos e escapar-me de vez. Aproveito todo o que posso, mas nem sempre consigo fazer tudo o que desejo. E escrever, apenas por escrever também não é a minha especialidade. Quando escrevo é porque tenho algo para dizer, e algo que considero relevante. Não é porque me faltem temas relevantes para escrever, o que me falta é tempo para os escrever.

     Penso que este tema, o do tempo, do meu tempo, ou do tempo que me falta, ou das coisas que me sobram por fazer no tempo que tenho, vai ser recorrente até lá quase para o fim do ano. Entretanto virei aqui pontualmente para escrever, não de qualquer coisa que me apeteça, mas, seguramente, de algo que me carregue o espírito de urgência. Afinal, urgência, é também uma medida para o tempo. Urgência é um momento. O tal momento em que temos que fazer aquilo que não podemos deixar de fazer sob pena de sermos ultrapassados pelo tempo certo e exacto para o fazer.

     Oxalá o tempo não se oponha à felicidade de o usufruirmos parcimoniosamente.  É que, afinal, não somos donos do tempo, nem temos todo o tempo do mundo. Reconhecer isso é um bom e sábio princípio para  podermos usar o tempo que temos.

Jacinto Lourenço

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Tempo que Separa e que Une


      Mostramo-nos ingratos em relação ao que nos foi dado por esperarmos sempre no futuro, como se o futuro (na hipótese de lá chegarmos) não se transformasse rapidamente em passado. Quem goza apenas o presente não sabe dar o correcto valor aos benefícios da existência; quer o futuro quer o passado podem proporcionar-nos satisfação, o primeiro pela expectativa, o segundo pela recordação; só que enquanto um é incerto e pode não se realizar, o outro nunca pode deixar de ter acontecido. Que loucura é esta que nos faz não dar importância ao que temos de mais certo? Mostremo-nos satisfeitos por tudo o que nos foi dado gozar.
Lúcio Aneu Séneca, in Cartas a Lucílio, ed. Fundação Caloustre Gulbenkian


    A temporalidade é evidentemente uma estrutura organizada, e esses três pretensos "elementos" do tempo, passado, presente , futuro, não devem ser considerados como uma colecção de "dados" cuja soma deve ser feita - por exemplo, como uma série infinita de "agora", alguns dos quais ainda não são, outros que não são mais -, mas como momentos estruturados de uma síntese original. Senão encontraremos, em primeiro lugar, este paradoxo: o passado não é mais, o futuro ainda não é, quanto ao presente instantâneo, todos sabem que ele não é tudo, é o limite de uma divisão infinita, como o ponto sem dimensão.
Jean-Paul Sartre in O Ser e o Nada, (via Citador)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A sacralização da Direita e a diabolização da Esquerda...






Tinha acabado de fazer 20 anos quando aconteceu o 25 de Abril em Portugal. Sobre esse momento já passaram mais de 4 décadas. Embora nunca tenha sido analista político, não precisei de muito tempo, após um ou dois actos eleitorais, para perceber o rumo que o país iria seguir. Mas confesso que, depois da adesão de Portugal à então CEE, nada me poderia levar a supor que esta evoluísse na direcção que evoluiu e se transformasse numa hidra que abocanha a soberania das nações, especialmente das mais pequenas, e a reduz a um mero espasmo de subserviência ou a um tipo de balcão único  de representação  da plutocracia instalada em Bruxelas.

   Num curto lapso de tempo, depois de se ter percebido que o partido socialista não iria fazer qualquer tipo de favor à direita para a manter à tona, eis que se agitam todos os fantasmas e se ameaça com os piores anátemas essa  'heresia'  que se ergue de eventualmente poder vir a existir um governo que congregue o partido socialista e as forças partidárias à sua esquerda com representação parlamentar, como se o voto que elegeu os deputados da direita merecesse mais crédito do que a maioria dos votos que elegeram as forças da esquerda. Que eu saiba, o voto, um voto, seja ele qual for, depois de entrar na urna, não revela casta, cor ou cheiro; trata-se de um pedaço de papel com uns quantos símbolos partidários inscritos e sobre um dos  quais o cidadão eleitor, qualquer cidadão eleitor,  apôs uma cruz que determina a sua vontade sobre quem gostaria de ver a governar o país. Mas parece que agora, de repente, se descobriu em Portugal, e na Europa, que o voto de um cidadão eleitor de direita tem sempre mais valor para eleger quem deve governar do que o voto de um cidadão eleitor de esquerda. Ou melhor: para a direita, o que interessa no Sufrágio Universal Secreto e Directo é que, seja qual for a quantidade de votos que consiga obter, seja sempre ela a governar porque só ela tem o direito de o fazer, como se os seus votos passassem por um processo de transubstanciação que transformasse uns pedaços de papel com alguma tinta em algo de transcendente. Se o mesmo Sufrágio Universal Secreto e Directo, colocar a maioria dos votos nas forças à sua esquerda, aí já não pode ser, essas forças não podem governar porque são de esquerda.

     Ou seja: na verdade, o que as forças da direita , em Portugal e na Europa, intuíram desde há uns anos a esta parte é que nós, portugueses e europeus, temos um sistema eleitoral baseado num sufrágio censitário, ou dinástico, sei lá, em que só os votos de uns quantos plutocratas e dos seus representantes e clientes  podem ser validados para eleger quem governa em Portugal  porque só eles são os 'lídimos portugueses'. Os votos dos portugueses apontados à esquerda são, para toda essa gente que anda agora abespinhada com a possibilidade de ser o partido socialista e as forças da esquerda a governarem, assim como que um género de votos iconoclatas, anti-naturais, não transubstanciados, feios, porcos e maus e logo não podendo ser tidos em conta para que com eles se possa governar em Portugal, mesmo que até representem a maioria da vontade do povo. É o principio antinómico da sacralização da direita e da diabolização da esquerda, especialmente se a esquerda não manifestar espasmos de subserviência para com Bruxelas, ou não aceitar um qualquer exorcismo que a submeta aos poderes da hidra.

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Não Acredito em Papões...



Este tempo que vivemos, de uma acentuada bipolarização político-partidária entre esquerda e direita traz-me à memória o ano em que fui chamado a cumprir o serviço militar obrigatório: 1975. Ficou conhecido como o ano do 'verão quente de 75'. A radicalização político-militar-partidária subiu a níveis que pareciam só ter fim com uma guerra civil. Em dois ou três momentos estivemos lá perto. O 11 de Março esteve quase a constituir-se no pavio que incendiaria tudo. Depois veio o 25 de Novembro e acalmou.
Fazia a especialidade na EMEl de Paço de Arcos. Uma manhã, fui chamado ao serviço para subir para as traseiras de uma Berliet posicionada no interior do quartel e virada para o portão sul da unidade. Dentro da viatura, por detrás de uns sacos de areia, uma metralhadora pesada Breda. Explicaram-me à pressa como funcionava e como se municiava. " - Ficam aí ( eu e outro camarada) até serem rendidos ! " " -E que é que fazemos ?" Perguntei. "Disparam se algum carro de combate deitar o portão abaixo !" Era a ordem. Vim, horas depois, a descobrir que as forças contra quem devíamos disparar pertenciam à chamada contra-revolução e eram encabeçadas pelos Comandos de Jaime Neves e pelos Para-Quedistas, entre outros. Não vou aqui revelar o que é que eu e o meu colega combinámos fazer se o portão fosse abaixo, mas a nossa vontade de disparar era nula, até porque o poder de fogo de Jaime Neves faria ir a Berliet pelos ares num ápice. Além do mais, a Breda estava toda enferrujada e não sei há quantos anos não era usada. Felizmente não aconteceu nada. Mas isto mostra ao que a radicalização das ideias pode levar.
As duas datas que citei, fracturaram completamente as forças armadas e radicalizaram-nas entre esquerda e direita, mas também a sociedade civil na altura se radicalizou à volta disso e da unicidade sindical defendida pelo PCP e a unidade sindical defendida pelo PS. Foram grandes as manifestações contra e a favor de qualquer das opções. Acho que nunca vi em Portugal tão grandes e tão encarniçadas manifestações. A isto tudo, somou-se a luta e as enormes manifestações dos SUV ( Soldados Unidos Vencerão) contra o stato quo da hierarquia militar. Pelo meio, aconteceram algumas mortes. O País cindiu-se politicamente em dois.
Bem sei que o que observamos agora em Portugal  não tem nada a ver com o relato que aqui deixo, mas pode eventualmente explicar muito. As posições estão extremadas, e isso não vai seguramente ser bom para o país. Observo nas redes sociais, como o FB, muita gente a digladiar-se sobre quem é melhor para governar. Noto azedumes a virem ao de cima. Suspeições, acusações, até ofensas. Pessoalmente não irei alimentar essa fogueira, mas não posso, nem devo defender quem, ao longo dos últimos quatro anos empobreceu, em extremo, o país, indo "além da Troika". Um governo que em 2011 foi constituído com base em promessas eleitorais mentirosas, que obrigou perto de 400 mil pessoas a emigrar, que cortou salários, pensões, na saúde, na educação, nos cuidados à infância e aos idosos, aos mais desfavorecidos. Que ignorou a cultura e ostracizou a ciência, que esmagou a classe média com "um enorme aumento de impostos", taxas e taxinhas, que ultrapassou todas as linhas vermelhas que ele próprio traçou, que exponenciou uma divida pública que os portugueses das próximas gerações terão que pagar com língua de palmo ( e bem sei que não foram os únicos responsáveis, mas são responsáveis por terem feito o mesmo que outros ), que malbaratou o património empresarial nacional com privatizações que colocaram as nossas principais empresas nas mãos do estado chinês e da cleptocracia angolana, etc, etc e que, em resumo, pretendeu sempre governar à margem da constituição. Um governo que fez isto, não pode continuar a governar como se nada tivesse acontecido, ou como se a sua obra fosse digna de registo. Não! Se alguém acha que pode fazer melhor, deve governar, para julgar temos as eleições. Aprendi que radicalizar é uma coisa perigosa, mas também não acredito em papões saídos dos idos de 75, como os que agora se agitam por aí.
Jacinto Lourenço

sexta-feira, 6 de março de 2015

Viver num País em estado de Esquizofrenia Colectiva


Cada dia que passa  mais me convenço que vivo num país em estado de esquizofrenia  colectiva.  Depois de quase  meia dúzia de anos a serem explorados, roubados, espoliados, humilhados e enxovalhados, os portugueses, quando tudo podia levar a supor que tivessem ganho  alguma experiência com tão amargas vicissitudes, voltam - a fazer fé nas últimas sondagens – a dizer que vão votar, nas próximas eleições legislativas, nos mesmos partidos e homens que os fizeram amargar e passar por tão difíceis condições que levaram ao empobrecimento, à miséria de muitos, à emigração massiva e forçada de jovens que tanta falta faziam ao país, ao desemprego  na casa dos 20 %, à penhora  de habitações e despejo das famílias em números nunca vistos em Portugal, ao aumento exponencial da dívida pública, ao escândalos  económicos  de BPN, BES, PT, etc, e que estamos a pagar, à transferência de fundos dos bolsos dos pobres para a conta dos ricos, à degradação do Serviço Nacional de Saúde procurando substituí-lo por uma saúde privada a que só têm acesso  os que puderem pagar um seguro de saúde ou aqueles a quem as empresas privadas o atribuírem, da escola pública em benefício da privada com a degradação ostensiva e calculada da primeira, à  delapidação  dos melhores e mais  lucrativos  activos do estado e da sua entrega ao capital privado , na maior parte estrangeiro , etc, e isto para só lembrar um pouco daquilo que todos, ou quase todos,  sabem.

Em Belém, devíamos ter um Presidente, mas temos apenas um residente, que nem sequer paga renda, e que dispõe de um orçamento sumptuoso e escandaloso  especialmente quando comparado com outros no estrangeiro, em países com diferentes capacidades económicas,  e que disse ao que vinha logo no discurso de vitória na noite das últimas eleições presidenciais.   No (des)governo , está um pequeno exército de copistas e replicadores das políticas da srª Merkel, que, como é evidente, só interessam à srª Merkel.  Na oposição trocaram o chamado líder da oposição, que diziam enfermar de frouxidão, por outro tão frouxo como o seu antecessor  mas a que junta  a desgraça de ser desastrado e ausente, isto, claro, para além de não se lhe conhecer qualquer tipo de ideia para o futuro do país que vá além de dizer mal do principal adversário. Ora, como bem sabemos, só isso, não serve para reerguer Portugal da miséria moral e material  em que caiu.

Para finalizar, sabemos agora que o ‘impoluto’ primeiro-ministro, afinal, utilizou o ‘esquecimento’ ou  ‘ignorância’  legal  como argumentos  para justificação de evasão de pagamento de impostos e contribuições.  E, para além de ele próprio achar que tem condições  para  continuar a (des)governar,  outros,  como o  residente de Belém,  não se pronunciam, não vá alguém lembrar-se, outra vez,  dos processos, pouco claros, que permitiram que ele usufruísse de mais-valias ao alcance apenas de alguns amigos de Oliveira e Costa, no BPN, ou ainda dos esquemas, também nunca esclarecidos, que facilitaram a construção da sua nova  moradia algarvia, na mesma rua onde muitos  dos seus amigos do BPN também possuem uma.

Face a tudo isto, os portugueses acham que os partidos que os (des)governam e levam à miséria há muitos anos, devem continuar com terreno livre para concluir, ou continuar a sua obra.  Isto tem um, ou vários  nomes : esquizofrenia, fuga para a frente, atraso, embrutecimento, amorfismo, baixa auto-estima, estupidez.   E disto, eu não partilho.

Se tenho alternativa ? Não sei se tenho ! Mas uma coisa faço: se estou à beira do abismo nunca dou um passo em frente, recuo, fujo dali, não deixo que me empurrem.


Jacinto Lourenço

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Rádio é outra Coisa - 13 de Fevereiro, Dia Mundial da Rádio


Há coisas que não se explicam, e esta é uma delas: não consigo passar um dia sem ouvir rádio. É aliás uma das primeiras coisas que faço de manhã, quando acordo; ligar o rádio. Mas não ouço qualquer tipo de rádio ou qualquer estação de rádio. A rádio, como a televisão, hoje, tem escolha. Já não é como nos meus tempos de criança e adolescente em que ouvir rádio significava ouvir Emissora Nacional, Rádio Clube Português ou, se morássemos em Lisboa, os Emissores Associados ou uma ou outra rádio de menor dimensão e alcance. Depois havia as ondas curtas, para ouvir a Rádio Moscovo ou a Rádio Portugal Livre, de que o meu avô José era atento ouvinte. Também se podia ouvir a BBC, mas isso, claro, o meu avô José não fazia por não saber inglês. Ouvir  rádio, nesse tempo, nos anos 60 e início de 70, podia ser, de acordo com o regime vigente, uma atitude subversiva e "anti-patriótica". Mas toda a gente ouvia. Os que eram anti-salazaristas ouviam as ondas-curtas para saberem o que se passava no país. Os Salazaristas ouviam também, mas por razões contrárias: para saberem o  que diziam os ingleses da BBC, e os comunistas da Rádio Moscovo sobre o que não se passava no país.  A rádio, nesse tempo, era das poucas alternativas dos pobres, e especialmente dos pobres e assalariados rurais no sentido da amenização das suas  difíceis condições de vida. Televisão era algo ainda incipiente e só durava duas ou três horas por dia, com uma programação onde a transmissão de uma corrida de touros ou de um evento desportivo eram uma autêntica pedrada no charco. Claro, também se podia ver os desenhos animados ao domingo à tarde.  Mas rádio sim, era outra coisa. Passava a "Simplesmente Maria", os "Parodiantes de Lisboa", o "Serão para Trabalhadores", os "Discos Pedidos", os concursos para eleição do rei e da rainha da rádio, ganhos invariavelmente por Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, António Calvário, Artur Garcia, Fernando Farinha ou Tony de Matos. Ouvia-se também as peças de teatro onde pontificavam os grande actores nacionais de então. Enfim, outro tempo, em que a rádio era uma referência de todos.

A Rádio marcou a minha geração. Nela ouviam-se os relatos da bola ao domingo à tarde,  sim, porque os jogos realizavam-se, todos, e sempre, ao domingo à tarde.  O 25 de Abril trouxe as "Rádios-Piratas", onde eu próprio fui radialista, e o país radiofónico havia de se transformar bastante e, quanto a mim, para melhor. A rádio reinventou-se. Teve que fazer face à televisão, à explosão de novos meios de comunicação, aos jornais, à Internet. Quando todos lhe prognosticavam a morte, eis que ela aí está, mais viva do que nunca, com mais estações do que nunca. Rádio para todos os gostos, todas as idades, todos os momentos do dia ou da noite. Rádio que levamos connosco para a praia, para o campo, para o carro, para a rua. para a cama, até para a casa de banho. A rádio faz-nos companhia em todas as circunstâncias e ocasiões e, normalmente, é a primeira a trazer-nos as boas ou más notícias. 

Em minha casa, a casa onde cresci, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60 e a televisão, alimentada a gerador, era um 'luxo'  algo recente a que poucos particulares podiam ainda aceder,  mas houve, tanto quanto me lembro, quase sempre,  uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha.  A rádio era assim como que uma evasão espiritual e mental para quem habitava um país que uma ditadura teimava em manter como ilha de criminoso subdesenvolvimento e atraso cultural e civilizacional. Era, dentro do "Estado Novo", o único meio de comunicação que possibilitava uma pequena amostra de democracia. E talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Possúo uns sete ou oito aparelhos de rádio, dois deles com mais de cinquenta anos, a válvulas, e ainda a funcionar . Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, como é o caso agora mesmo, enquanto escrevo e ouço a emissão especial da Antena 1.   Gosto de  estações de rádio com gente dentro. Já as rádios temáticas, que só passam música durante horas a fio, não me dizem muito, salvo uma ou outra honrosa excepção.  Bem sei que poupam em recursos humanos... Mas se é  para ouvir apenas música, então  tenho outros suportes mais modernos. Rádio é uma coisa diferente.

 Gosto de uma Rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma Rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de 'bombardeio' noticioso. Gosto de uma Rádio que não faça das notícias um repetitivo 'enchimento de chouriços'. Uma Rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou 'floreados'  bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos da população. Depois é só escolher  o que mais me me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas por companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso, sem exagero, do que numa sala onde esteja sozinho.

É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo 'desligo-me'  sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida. 

A Rádio acabou por marcar um pouco do que eu sou como pessoa, pelas melhores razões. Fui radialista  durante cerca de 17 anos e, tudo somado, dá como resultado que, sem Rádio por perto, a minha vida seria sem dúvida um pouco mais insonsa. 

Felizmente que em Portugal se faz muito boa e variada Rádio. Obrigado a todos os que a produzem, realizam e trazem até nós, os ouvintes.

Jacinto Lourenço  

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Em que Cremos quando Cremos em Deus ?





...Acreditei que Deus brinda – galardoa, abençoa - determinados filhos com milagres. Mantive por anos a certeza de que o Todo Poderoso interfere, indiscriminadamente, na história com alívio, prosperidade, cura, avanço profissional, proteção e longevidade. Jamais ousei indagar seus critérios. Hoje pergunto: Como conceber uma divindade justa se ela realiza suas maravilhas sem critério algum? Demorei a atinar: se Deus ama com gratuidade, milagres não podem vir para os mais capazes, mais eficazes e mais merecedores.
A guinada radical em meus conceitos se deu no dia em que assisti a uma reportagem sobre crianças aidéticas no Congo. O jornalista mostrou os corredores imundos de um pequeno hospital. As imagens gráficas e chocantes me desmoronaram. Diante do sofrimento, cara-a-cara com meninos e meninas agonizando sobre finos colchões de plástico, um monte de certezas ruiu. Com os olhos marejados de lágrimas eu me via encalacrado. Depois, a câmera foi até o necrotério refrigerado, já sem lugar para tantos corpos. A velha teologia que me dera um falso chão não resistiu. O choro das mães nos corredores explodiu o que até então parecia indubitável.
Pensei: Se existe um Deus  justo, que ama gratuitamente, não é possível que ele faça milagres em meu pequeno mundo ou no estado do Texas e dê as costas para tanto sofrimento no Congo.
A partir desse dia, procurei me desfazer dos clichês que eu usava para explicar os horrores da vida. Eu já não queria lidar com a aflição humana com o cinismo do religioso: Não importa a realidade, importa o que o texto sagrado diz. Não aceito que repitam que a raça humana se desgraçou em Adão e, por isso, padece as consequências funestas e intermináveis do seu pecado. Meninos e meninas condenadas ao inferno de Serra Leoa, Sudão, Congo, não pediram para nascer. Não há lógica no universo que justifique o que percam em vida.
Não posso celebrar minha condição privilegiada, ou a sorte de abençoado, enquanto multidões nascem, morrem e são enterradas sem sequer possuírem registro oficial de que existiram. Não consigo afirmar que os mais destituídos e pobres foram criados por Deus como vasos de desonra - como ensina o calvinismo. A doutrina da dupla predestinação que reformados defendem com ardor secular me é detestável. A dignidade humana não merece ser rebaixada a mero dente em uma engrenagem estratégica de Deus. Não aceito que o Criador possua uma vontade permissiva; e que, para trazer glória a si mesmo, ele faz vista grossa ao mal.
Essas certezas se pulverizaram em minha alma e por não ter calado, recebi rótulos odiosos: apóstata, herege, desviado. Minha metamorfose aconteceu, entretanto, porque eu busquei responder às inquietações da alma. Sei, ainda engatinho nessa jornada espiritual. Meu coração percebe, contudo, que Deus não é tão minúsculo quanto me ensinaram, e acreditei. Ao me despedir das divindades que povoaram uma fé pueril, não confesso: eu ainda creio. Digo apenas: eu volto a crer.
Soli Deo Gloria
Ricardo Gondim in blogue de Ricardo Gondim

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

No Limbo entre o Purgatório e o Inferno...



Portugal está numa situação insustentável. Está num limbo entre o purgatório e o inferno. Os portugueses sentem-se encurralados e sem saída, ou melhor, têm duas saídas: o abismo e a fuga para a frente. Não sei qual vai ser escolhida, mas nenhuma augura nada de bom.

Estávamos nós mergulhados na letargia habitual da nossa triste vida colectiva, a que nos deixámos conduzir como nação, quando, de repente, somos despertados num estertor de notícias pavorosas vindas dum subterrâneo político-institucional-social que nos alertou para o facto de que, afinal, as coisas são e estão muito piores do que imaginávamos,  neste país de brandíssimos e amórficos costumes.

De repente percebemos que os vistos dourados de Portas e Macedo eram ( e são ), afinal, uma porta dourada para actuações verdadeiramente mafiosas, no pior sentido da palavra.   A rede de interesses urdida por criminosos revestidos com a  pele de altos quadros do estado é assustadora. Há de tudo: criminosos que utilizam os seus cargos na administração pública para 'facilitarem' vistos de permanência, residência  e circulação a gente que chega com malas de euros conseguidos sabe-se lá como e onde ( só desconfiamos...), políticos que telefonam a esses corruptos a pedir favores para 'amigos' e 'conhecidos', juízes que jantam com os criminosos e corruptos e com os clientes destes, serviços secretos do estado, onde se encontram parqueados os amigos dos corruptos,  que fazem limpezas informáticas, varrimentos  e despistagens a  escutas e vigilâncias electrónicas nos gabinetes dos criminosos e a pedido destes, os mesmos criminosos a telefonarem a juízes queixando-se do 'aborrecimento' que é saberem que estão a ser escutados e vigiados, ministros que vão até Ayamonte só para se encontrarem  com os seus amigos corruptos e falarem longe das escutas telefónicas das polícias portuguesas, etc, etc. E isto, meus amigos, é só aquilo que a comunicação social nos vai trazendo, o grosso das coisas, estou convencido, nem chega ao nosso conhecimento pois é abafado nos gabinetes, nos corredores sombrios ou nos esconsos dos edifícios do poder ou da administração pública ou, quiçá, mais criativo ainda, à mesa de um qualquer café em Badajoz,  Ayamonte ou Cáceres.

Como se  não bastasse, do parlamento chega-nos a notícia de que os políticos que passaram 12 anos a executar 'arriscadas', 'perigosas' e 'desgastantes' funções políticas naquele lugar, voltam a ter direito à pensão vitalícia que lhes foi cortada com a crise. Claro que, todos os outros 'privilegiados' pensionistas portugueses, da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações,  que viram 'muito justamente' as suas pensões sistematicamente cortadas e atacadas pela usura e captura fiscal do governo, continuarão sem receber aquilo que era seu, de direito, por uma vida inteira de trabalho, muitos desde crianças de tenra idade. E pasme-se, ou talvez não, o entendimento para que as subvençõezinhas desses 'denodados' deputados e políticos chegasse a bom porto vem de deputados do PS e PSD, os mesmos partidos que têm governado Portugal nos últimos 40 anos e que nos levaram à situação onde estamos.  Costa ainda nem chegou ao poder mas, falando, sem falar, ou mandando outros falar em seu lugar,  já todos percebemos as suas linhas de orientação para o futuro do país: mais do mesmo que temos tido desde 2011.

Mas ainda não é tudo. Ontem assistia no canal generalista da SIC à reportagem sobre o BPN e a Parvalorem, esta última é a empresa que ficou com os activos financeiros tóxicos do banco para que este fosse entregue, limpinho e sem osso,  ao BIC Angolano, pelos tais 40 milhões de euros. Um negócio no mínimo estranho e obscuro, como é bom de ver.  A reportagem  não deixa lugar a dúvidas: está confirmado e reconfirmado que  o aparelho de estado foi e continua a estar capturado por  mafiosos e criminosos que ostentam uma pele de gente elegante, bem falante e de trato fino.  Uma grande parte  dos ex-gestores  e ex-directores do BPN, que ajudaram a administração da central criminosa, que era o banco, a concretizar os seus crimes, roubos e desvios de grandes somas de dinheiro, e que todos estamos a pagar, estão agora colocados na Parvalorem  em elevados cargos de gestão, principescamente  remunerados como convém, mesmo depois de terem sido julgados e condenados por participação na ajuda à administração no saque ao BPN. E, imagine-se que, 'sem surpresa nenhuma', até o filho de Oliveira e Costa se apresenta, religiosamente, todos os dias, para cumprir o seu horário sem que se saiba muito bem o que por lá anda a fazer para além de receber o ordenado ao fim do mês e eventualmente catar documentos que possam eventualmente incriminar, ainda mais, a quadrilha do BPN .

Perante isto, dez milhões de portugueses, assistimos passivamente, como se tudo se estivesse a passar a milhares de quilómetros da nossa costa, como se não nos dissesse respeito, como se não ocorresse no nosso país, como se não fosse a nossa vida, a dos nossos filhos e filhas, a dos nossos netos.  Andamos a construir uma nação há novecentos anos. Somos um povo velho ( e agora de velhos ).  Devíamos ter vergonha por deixarmos, de facto, que isto aconteça a uma nação supostamente adulta e a um povo supostamente autónomo e dono de si próprio. O sebastianismo que nos vai na alma é uma coisa dolorosa, doentia, purolenta.                                                                                                                                                                  
 Estamos sempre à espera de algo ou de alguém providencial que nos mude o fado, como se esse  fosse o nosso destino secular. Recusamos erguer a indignação mais além da fronteira de uns desabafos  raivosos debitados nos fóruns radiofónicos e televisivos, ou à mesa do café, numa tertúlia conspirativa com os amigos,  desfiando o nosso fadário,  em surdina, sim,  porque as paredes voltaram a ter ouvidos, e nunca sabemos quando alguém quer ficar com o nosso emprego por menos duzentos ou trezentos desgraçados euros.

Somos realmente um povo estranho ou, pelo menos, nos últimos anos da nossa história, deixámos de atender ao essencial da dignidade que reveste a existência de uma nação enquanto tal.


Jacinto Lourenço