terça-feira, 10 de outubro de 2017

Saudades de quando o Futebol era Sério e Bonito



O interregno nos campeonatos de futebol para dar lugar aos jogos da selecção nacional tem sabido bem. Por um tempo, pequeno que seja, livramo-nos do discurso do ódio. Estes dirigentes que tomaram o futebol como se fora um negócio seu, o seu emprego ou o seu modo de vida,  têm passado, nas últimas décadas, todo o tempo, a semear ódios e ventos. Ora, como bem sabemos,  ódio gera  ódio e quem semeia ventos só pode esperar colher tempestades.   
Estas pessoas usam os clubes como instrumentos de ataques pessoais e institucionais e transformam mesmo os atletas que representam os clubes em joguetes das suas políticas, ditas "desportivas", aproveitando-se muitas vezes da instabilidade emocional destes, da avidez dos seus empresários, e do seu desejo por minutos de jogo, brilho e glória rápida capazes de os guindarem a mais altos voos achando que conseguem tal desiderato caindo nas boas graças de presidentes e treinadores. Esquecem que à mínima baixa de forma, lesão mais prolongada, ou mesmo à passagem dos anos, se tornam 'produtos' descartáveis e dispensáveis para qualquer presidente.  Há um chicote psicológico nas mãos de cada dirigente de clube pronto a cair em cima de quem não apresente resultados imediatos ou que não alimente a sua sede presidencial de protagonismo. Nessa demanda  promovem uma política de "eucalipto" secando tudo à sua volta e devastando clubes e instituições. Envolvem governos, bancos, cidadãos, empresários, câmaras municipais, juntas de freguesia, orgãos de comunicação e, se necessário, gente da mais baixa ralé nas suas "guerras" contra hipotéticos "sistemas".  Querem ser donos da cidade. Ganhar a qualquer custo ou com qualquer estratagema. Ganhar sempre, se não dentro do campo então que seja fora dele.  O seu ego é enorme e insaciável por cada vez mais protagonismo e exibição. As suas atoardas e as dos seus apaniguados, agora designados directores de comunicação, são setas envenenadas, mas vistas como garantia de facturação pelas televisões que consomem horas e horas da mais reles e baixa programação em nome do futebol  que raia muitas vezes o asco. Poucos dirigentes, muito poucos, têm feito bem ao futebol e ao desporto em geral no país;  pelo contrário: os resultados da sua maléfica acção estão  à vista, todas as semanas, nas bancadas dos estádios, nos orgãos de comunicação,  nos tribunais.  

Tenho pena que o futebol se tenha deixado conquistar por esta gente, até porque  sou de uma geração que cresceu em Portugal tendo praticamente como únicas referências capazes de sustentar algum orgulho nacional  a nossa história passada e o futebol que,  lá fora,  e às vezes, se agigantava e ganhava, volta e meia, um jogo ou  um troféu que nos deixava a pensar que também  éramos gente e que nos chegava a dar a ideia de que, afinal, podíamos ombrear com os grandes da Europa em alguma coisa, mesmo que isso não passasse de uma ilusão...

É assim, a nossa vida, em Portugal. Parece-me bem que um dos nossos principais defeitos, enquanto povo, é não estarmos dispostos a escrutinar, convenientemente,  as competências e interesses de quem se propõe dirigir-nos, seja na política, no desporto ou até noutros sectores da vida. Normalmente vamos na cantiga de embalo fácil de homens e mulheres, sacos de vento, que não passam afinal de manipuladores das paixões populares em proveito próprio. Assaltantes que com todo o despudor e à vontade vão roubando e matando o que ao futebol ainda resta de bonito. Até quando deixaremos que isso seja assim ?!



Jacinto Lourenço

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ENCOSTADO À PAREDE




Tenho dois princípios, mais ou menos assumidos, que raramente quebrei aqui: não falo sobre futebol e não falo sobre política partidária. Hoje vou abrir uma excepção e vou falar sobre as últimas eleições autárquicas que nos trouxeram algumas surpresas (ou talvez não). 

     A grande surpresa (ou talvez não) foi para mim a enorme 'vassourada', representada por duas mãos cheias de câmaras, que o PCP e seus pares levaram em regiões onde não seria espectável (ou talvez fosse) que tal acontecesse. Bom, pelo menos para Jerónimo de Sousa, a avaliar pelas contundentes palavras que dirigiu a PS e BE nas intervenções que tem feito até agora e que os media nos têm trazido. 


     Jerónimo de Sousa tem mostrado duas ou três coisas importantes: 1ª que tem muito mau perder. 2ª que ficou absolutamente surpreso com as perdas que o voto popular lhe inflingiu. 3ª que está enraivecido com as perdas e a seleccionar os culpados que obviamente identificou já no PS e no BE.



Passe a imagem, que não pretende ofender Jerónimo de Sousa nem o PCP, as suas intervenções pós eleições fazem lembrar a reacção daqueles touros que são soltos nas largadas e que, acossados e espicaçados pela populaça por todos os lados, vão recuando e encostando os quartos traseiros a um qualquer pedaço de parede disponível, resfolegando e aumentando perigosamente a sua raiva que descarregarão num ataque na única direcção que têm disponível: em frente, e sobre quem tiverem  pela frente. É isso que Jerónimo de Sousa representa neste momento: um "touro enraivecido" pouco disposto a medir consequências do seu ataque ou se ele tem ou não alguma razão de ser.

     Jerónimo de Sousa e o PCP nunca souberam tirar boas lições do que a história lhes vai impondo. Esqueceram que o Estalinismo já não rende votos e que ser amigo da Coreia do Norte ou defender Maduro, por exemplo, é algo que lança um verdadeiro anátema sobre quem quer fazer política séria e que possa ser levada a sério por quem deposita o seu voto nas urnas. E isso, claro tem um preço alto a pagar. Pessoalmente tenho pena que assim seja. Afinal o PCP tem o seu lugar na história contemporânea portuguesa, uma história que, no caso dos comunistas, se fez principalmente na resistência à ditadura militar e salazarista que contribuiu em muito para abrir caminho ao 25 de Abril de 1974.

Jacinto Lourenço

domingo, 8 de outubro de 2017

INDEPENDÊNCIA, PARA QUE TE QUERO ?!



É a segunda vez esta semana que quebro o meu princípio de não escrever sobre política, mas confesso nem sequer saber se o que vou escrever é sobre política ou sobre paixão, sendo que seja sobre política ou sobre paixão o assunto é, em qualquer dos casos, apaixonante.

Falo sobre a Catalunha e sobre os últimos acontecimentos, de todos conhecidos, à volta da vontade e aspiração manifestas de uma parte significativa dos seus naturais em acederem à independência. Mas antes disso é preciso relembrar aos mais distraídos de que Espanha, ao contrário daquilo que possam imaginar, não é uma nação, Espanha, esse país reunido no espaço geográfico restante da península ibérica depois de descontado Portugal, é uma amálgama de nações que nunca perderam, umas mais outras menos, a sua identidade própria. Galiza, País Basco, Navarra, Andalucía, Castela e mesmo Aragão ou outros territórios em que essa identidade própria está mais sublimada mas não menos esquecida, coabitam no mesmo território ibérico mas não comungam todos dos mesmos valores identitários dentro das fronteiras espanholas.
De vez em quando isso vem ao de cima, o desejo de ser livre, de ser independente. A Catalunha nunca o foi, pese embora já o tenha tentado anteriormente. De certa maneira a nossa restauração da independência em 1640 está ligada à impossibilidade da Catalunha o ter sido nessa altura. Tivesse Filipe III desviado os seus exércitos da Catalunha para Portugal e hoje a Catalunha seria, quiçá, independente . Mas enfim, isso são outras histórias.

     Não sei se os catalães podem ou não ser independentes. Como português não desejo negar aos outros povos aquilo a que o meu próprio povo sempre aspirou e que, felizmente, foi capaz de construir e consolidar. Também não sei se ser independente é ou não o melhor para a Catalunha no contexto global em que vivemos. Essas são questões a que o povo catalão terá que saber que respostas dar. O que sei, e muito bem, é que o desejo de ser independente e livre de jugos estrangeiros é um desejo legítimo que ninguém pode negar a ninguém e muito menos negar a afirmação da expressão legítima dessa vontade através do voto em referendo.

Dito isto, espantam-me, e alarmam-me, as reacções irracionais de todos os intervenientes no processo que se está a desenrolar na Catalunha. Cargas policiais violentas e descontextualizadas com um resultado pesado de feridos entre gente pacífica que só queria manifestar o seu desejo de liberdade ou de continuidade da integração. Crescendo de ódio entre os pró independentistas e integracionistas. Absoluta e invalidada capacidade de trazer alguma lucidez crítica a um processo que pedia isso acima de tudo, de ambos os lados. Finalmente um governo espanhol e um rei de Espanha que se comportam como senhores feudais que pretendem, ao que parece e acima de tudo, manter intocado o seu feudo catalão. Se Filipe VI, Mariano Rajoy e Carles Puigdemont, conseguiram demonstrar alguma coisa, foi apenas que nenhum deles estará porventura à altura de esgrimir vontades sobre este assunto na Catalunha.


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 13 de março de 2017

Escritores no Facebook...




Tenho por hábito espreitar no facebook textos de pessoas que gostam de escrever, contos, pensamentos, etc. Leio algumas frases só para ver se me convencem. A maior parte das vezes, infelizmente ou felizmente, choro de rir com algumas frases escritas e tomo nota. Já vão perceber porquê. Eis alguns exemplos:



«Voltou da guerra com uma perna que tinha perdido.»

 «O velho camponês era cego: mas, apesar disso, compreendia perfeitamente o português.»

«Desceu quatro a quatro os três degraus da escada.»

«Os futuros esposos ficaram fixados durante quinze dias à porta da repartição do Registo Civil.»

«Sob o véu, a noiva tinha um ar quase virgem.»

«A minha prima Sofia é muito gentil, desde que lhe façam todas as vontadinhas.»

«Ernesto é canhoto. Sem dúvida Ernesto serve-se das xícaras com as asas do lado esquerdo, inventadas por Afonso Allais para canhotos.»

«Um peixe gemia na extremidade da linha.»

«Minha avó vive sozinha no campo. Possui uma galinha e um cão. Em cima dum banco cacareja todo o dia.»

«O peixe voador, encharcado em água, caiu no barco com ruído seco.»


«Após a morte, os cadáveres podem ser enterrados ou incinerados. Aqueles que não gostarem disso podem ser imortalizados.»



Jaime Bulhosa in Pó dos Livros

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O Chef às margens do Douro


Italianos a falar com as mãos,  russos despropositados, holandeses e alemães barulhentos, espanhóis da Galiza ou galegos de Espanha, ou apenas galegos, como se queira, ingleses e irlandeses branquelas roseados, franceses espantados com um douro charmoso e, quiçá, a pedir meças ao seu Sena, orientais perseguidores de  bandeirinhas coloridas dependuradas de uma qualquer antena telescópica e portugueses em clara minoria neste concurso de etnicidades, o Chef, figura central e única da minha foto, alheio à multidão, recolhido em si, repousa e saboreia a volúpia do charuto e do conhaque, em clara contradição com a geografia dos odores e dos sabores.                                                                                                                                            
Entre o último almoço servido e o início dos petiscos vespertinos antes do jantar que se há de comer tarde, nesta tarde de um Outubro solarengo na Ribeira, a multidão  de gente e linguajares  tão  diversos clamará pelo regresso do Chef  à sua cozinha.                                         

Não, não é Havana.  Só no Porto se pode estar  assim às margens do Douro. 

Jacinto Lourenço  



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Dia Mundial da Rádio - Incontornável Rádio




Nasci e cresci na era da televisão.  A emissão começava às sete da tarde e terminava às onze da noite. Pelo meio haviam ainda dois ou três interlúdios musicais onde só se via uma imagem qualquer, fixa, acompanhada por uma música de fundo. Nunca percebi muito bem o porquê desses interlúdios mas presumo que a programação devia ser muito diminuta e não dava para as quatro horas de emissão diárias.  Ou seja, tudo resumido, aquilo daria para aí umas duas horas de emissão com programação normal.

Estávamos no tempo em que os telejornais só duravam meia hora... E do Super-Rato  e  mais dois ou três personagens de desenhos animados que ainda hoje fazem parte do meu imaginário infantil. Festa, mesmo, na terra onde passei parte da minha infância,  eram as transmissões de corridas de touros ou os jogos da selecção nacional de futebol ou os dos clubes grandes de então, que são os mesmos grandes de hoje, quando jogavam para as competições europeias. De resto, tirando os dias de semana e sábados à noite, só havia televisão durante mais horas ao domingo mas, mesmo assim, só a partir do meio da tarde.  Pouco a pouco, a televisão  lá foi  evoluindo, ou (in)voluindo, para aquilo que é hoje. A questão é que aquilo que a televisão é hoje tem muito pouco de atractivo. 

 Apesar de lhe vaticinarem vida curta,  mercê do aparecimento da TV, o que pontuava a vida do povo, pelo menos na província,  era a rádio. Era a rádio que as pessoas  ouviam, já que, com excepção de uma ou outra família mais rica e de alguns cafés, mais ninguém possuía televisão privada em  casa. Era um luxo ainda incomportável para a época e  só o 25 de Abril de 1974 modificaria esse estatuto e daria abertura para o começo da vulgarização da televisão vista em casa.  Telefonia, sim, muita gente tinha, embora um trabalhador assalariado tivesse que amealhar durante algum tempo para comprar uma telefonia ou, em alternativa, pagá-la a letras durante um ou dois anos.

   A minha geração foi porventura a última a ter a marca distintiva da rádio de forma bem vincada na sua vivência. Era a rádio que dava sempre os relatos da bola e que concitava as atenções dos homens e rapazes ao domingo à tarde ( sim, os jogos realizavam-se todos, e sempre, ao domingo à tarde ). Para os mais velhos, e mais ou menos politizados, era também a rádio que trazia as notícias que não passavam no crivo da censura em Portugal. Nas ondas curtas os mais velhos e mais politizados sintonizavam a Rádio-Moscovo e a Rádio-Portugal livre. Tudo muito em surdina, tudo muito baixinho, que as paredes, nesse tempo, tinham mesmo ouvidos e muitas pessoas foram delatados à GNR local, por vizinhos ou "amigos" ( Portugal foi sempre, afinal, mais do que se pensa ou diz, um país de "bufos" )  por escutarem esses programas clandestinamente sendo depois presos e sujeitos ao respectivo interrogatório no 'Posto' e,  provavelmente,  se ficasse só por aí,  a uns "afagos" dos guardas...

Alguns programas da rádio ficaram para a história: O Serão para Trabalhadores, da FNAT, (actual Inatel) os Parodiantes de Lisboa, ou a primeira rádio-novela em Portugal: "Simplesmente Maria", que deu brado.

Em minha casa, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60, mas houve, tanto quanto me lembro, sempre uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a nossa ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha. Talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir, normalmente ligado na Antena 1.  Não me agradam  estações de rádio sem gente dentro, que só passam música durante horas a fio, ( com uma rara excepção de grande qualidade ); bem sei que poupam em recursos humanos, mas para isso, para ouvir apenas música, tenho outros suportes mais modernos. Rádio é outra coisa diferente.

 Gosto de uma rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de bombardeio noticioso. Uma rádio que não faz das notícias um repetitivo "enchimento de chouriços". Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou "floreados" bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos populacionais. Depois é só escolher  o que mais me agrada.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas como companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho. Outras vezes posso simplesmente colocar uma música do meu agrado em fundo e assim vou embalado pelo som.

Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia, a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc.  É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo "desligo-me" sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida sem eu dar  conta. 

Sem rádio por perto, a minha vida seria  um pouco mais insonsa.   Entre a televisão, onde praticamente só vejo um ou outro telejornal e programação que coloco previamente a gravar, e a rádio, sem dúvida que prefiro a rádio, salvo quando a imagem se me impõe inevitavelmente.

Porque é que eu me decidi hoje a reflectir sobre este tema ? Primeiro porque se celebra, precisamente hoje, o DIA MUNDIAL DA RÁDIO, depois,  porque tendo sido  radialista amador durante uns bons anos, quer escrevendo textos quer fazendo a produção e locução  de programas, conheço muito bem qual o poder de penetração da rádio e a sua capacidade para poder chegar a lugares, impossíveis para outros meios. Depois porque sou um verdadeiro adepto radiofónico e da magia que se solta da 'caixa' todos os dias a qualquer hora e que continua a ter a capacidade de me surpreender. É evidente que sou muito criterioso na rádio que ouço. Em primeiro lugar, nas minhas preferências, está a Antena 1, companhia de muitas horas, mas também gosto da Antena 2, da Antena 3, da  TSF, da Rádio Smooth ou da RFM.  Depende muito do momento ou da programação.

Mas hoje, quando se celebra o DIA MUNDIAL DA RÁDIO, é também bom lembrar que, há uns anos atrás, quando a televisão se começou a impor,  muitos anteviam a morte da rádio. Tal como continuaram a vê-la, aliás, no advento de tantos gadgets e suportes capazes de armazenar e reproduzir som e imagem ou até mesmo na chegada da rádio exclusivamente transmitida via internet . Apesar disso, a velha Rádio cá continua, a adaptar-se aos tempos e à tecnologia e a evoluir na directa proporção em que a Televisão agoniza pese embora a imensidão dos recursos tecnológicos de visualização que esta tem ao seu dispor e a que a Rádio não pode deitar mão, por razões óbvias, e ainda bem, pois perderia, quanto a mim, todo o seu encanto.

É também bom lembrar, neste DIA MUNDIAL DA RÁDIO, que em Portugal se faz muito boa rádio, de excelência mesmo, a qualquer hora, do dia ou da noite, todos os dias. 



Jacinto Lourenço

quarta-feira, 22 de junho de 2016



Fui verificar a data do último texto que tinha publicado neste Blogue e fiquei surpreendido !  Dezembro de 2015 !!  Meu Deus, tanta coisa que já aconteceu em seis meses, foi o que pensei. 

     Não tenho vindo até aqui por manifesta falta de tempo. Actividades académicas não têm permitido uma maior assiduidade. Tive que colocar de lado muitas coisas que gostava de fazer e para as quais não tenho agora tempo. O tempo parece escorrer-me por entre os dedos e escapar-me de vez. Aproveito todo o que posso, mas nem sempre consigo fazer tudo o que desejo. E escrever, apenas por escrever também não é a minha especialidade. Quando escrevo é porque tenho algo para dizer, e algo que considero relevante. Não é porque me faltem temas relevantes para escrever, o que me falta é tempo para os escrever.

     Penso que este tema, o do tempo, do meu tempo, ou do tempo que me falta, ou das coisas que me sobram por fazer no tempo que tenho, vai ser recorrente até lá quase para o fim do ano. Entretanto virei aqui pontualmente para escrever, não de qualquer coisa que me apeteça, mas, seguramente, de algo que me carregue o espírito de urgência. Afinal, urgência, é também uma medida para o tempo. Urgência é um momento. O tal momento em que temos que fazer aquilo que não podemos deixar de fazer sob pena de sermos ultrapassados pelo tempo certo e exacto para o fazer.

     Oxalá o tempo não se oponha à felicidade de o usufruirmos parcimoniosamente.  É que, afinal, não somos donos do tempo, nem temos todo o tempo do mundo. Reconhecer isso é um bom e sábio princípio para  podermos usar o tempo que temos.

Jacinto Lourenço

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O Tempo que Separa e que Une


      Mostramo-nos ingratos em relação ao que nos foi dado por esperarmos sempre no futuro, como se o futuro (na hipótese de lá chegarmos) não se transformasse rapidamente em passado. Quem goza apenas o presente não sabe dar o correcto valor aos benefícios da existência; quer o futuro quer o passado podem proporcionar-nos satisfação, o primeiro pela expectativa, o segundo pela recordação; só que enquanto um é incerto e pode não se realizar, o outro nunca pode deixar de ter acontecido. Que loucura é esta que nos faz não dar importância ao que temos de mais certo? Mostremo-nos satisfeitos por tudo o que nos foi dado gozar.
Lúcio Aneu Séneca, in Cartas a Lucílio, ed. Fundação Caloustre Gulbenkian


    A temporalidade é evidentemente uma estrutura organizada, e esses três pretensos "elementos" do tempo, passado, presente , futuro, não devem ser considerados como uma colecção de "dados" cuja soma deve ser feita - por exemplo, como uma série infinita de "agora", alguns dos quais ainda não são, outros que não são mais -, mas como momentos estruturados de uma síntese original. Senão encontraremos, em primeiro lugar, este paradoxo: o passado não é mais, o futuro ainda não é, quanto ao presente instantâneo, todos sabem que ele não é tudo, é o limite de uma divisão infinita, como o ponto sem dimensão.
Jean-Paul Sartre in O Ser e o Nada, (via Citador)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A sacralização da Direita e a diabolização da Esquerda...






Tinha acabado de fazer 20 anos quando aconteceu o 25 de Abril em Portugal. Sobre esse momento já passaram mais de 4 décadas. Embora nunca tenha sido analista político, não precisei de muito tempo, após um ou dois actos eleitorais, para perceber o rumo que o país iria seguir. Mas confesso que, depois da adesão de Portugal à então CEE, nada me poderia levar a supor que esta evoluísse na direcção que evoluiu e se transformasse numa hidra que abocanha a soberania das nações, especialmente das mais pequenas, e a reduz a um mero espasmo de subserviência ou a um tipo de balcão único  de representação  da plutocracia instalada em Bruxelas.

   Num curto lapso de tempo, depois de se ter percebido que o partido socialista não iria fazer qualquer tipo de favor à direita para a manter à tona, eis que se agitam todos os fantasmas e se ameaça com os piores anátemas essa  'heresia'  que se ergue de eventualmente poder vir a existir um governo que congregue o partido socialista e as forças partidárias à sua esquerda com representação parlamentar, como se o voto que elegeu os deputados da direita merecesse mais crédito do que a maioria dos votos que elegeram as forças da esquerda. Que eu saiba, o voto, um voto, seja ele qual for, depois de entrar na urna, não revela casta, cor ou cheiro; trata-se de um pedaço de papel com uns quantos símbolos partidários inscritos e sobre um dos  quais o cidadão eleitor, qualquer cidadão eleitor,  apôs uma cruz que determina a sua vontade sobre quem gostaria de ver a governar o país. Mas parece que agora, de repente, se descobriu em Portugal, e na Europa, que o voto de um cidadão eleitor de direita tem sempre mais valor para eleger quem deve governar do que o voto de um cidadão eleitor de esquerda. Ou melhor: para a direita, o que interessa no Sufrágio Universal Secreto e Directo é que, seja qual for a quantidade de votos que consiga obter, seja sempre ela a governar porque só ela tem o direito de o fazer, como se os seus votos passassem por um processo de transubstanciação que transformasse uns pedaços de papel com alguma tinta em algo de transcendente. Se o mesmo Sufrágio Universal Secreto e Directo, colocar a maioria dos votos nas forças à sua esquerda, aí já não pode ser, essas forças não podem governar porque são de esquerda.

     Ou seja: na verdade, o que as forças da direita , em Portugal e na Europa, intuíram desde há uns anos a esta parte é que nós, portugueses e europeus, temos um sistema eleitoral baseado num sufrágio censitário, ou dinástico, sei lá, em que só os votos de uns quantos plutocratas e dos seus representantes e clientes  podem ser validados para eleger quem governa em Portugal  porque só eles são os 'lídimos portugueses'. Os votos dos portugueses apontados à esquerda são, para toda essa gente que anda agora abespinhada com a possibilidade de ser o partido socialista e as forças da esquerda a governarem, assim como que um género de votos iconoclatas, anti-naturais, não transubstanciados, feios, porcos e maus e logo não podendo ser tidos em conta para que com eles se possa governar em Portugal, mesmo que até representem a maioria da vontade do povo. É o principio antinómico da sacralização da direita e da diabolização da esquerda, especialmente se a esquerda não manifestar espasmos de subserviência para com Bruxelas, ou não aceitar um qualquer exorcismo que a submeta aos poderes da hidra.

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Não Acredito em Papões...



Este tempo que vivemos, de uma acentuada bipolarização político-partidária entre esquerda e direita traz-me à memória o ano em que fui chamado a cumprir o serviço militar obrigatório: 1975. Ficou conhecido como o ano do 'verão quente de 75'. A radicalização político-militar-partidária subiu a níveis que pareciam só ter fim com uma guerra civil. Em dois ou três momentos estivemos lá perto. O 11 de Março esteve quase a constituir-se no pavio que incendiaria tudo. Depois veio o 25 de Novembro e acalmou.
Fazia a especialidade na EMEl de Paço de Arcos. Uma manhã, fui chamado ao serviço para subir para as traseiras de uma Berliet posicionada no interior do quartel e virada para o portão sul da unidade. Dentro da viatura, por detrás de uns sacos de areia, uma metralhadora pesada Breda. Explicaram-me à pressa como funcionava e como se municiava. " - Ficam aí ( eu e outro camarada) até serem rendidos ! " " -E que é que fazemos ?" Perguntei. "Disparam se algum carro de combate deitar o portão abaixo !" Era a ordem. Vim, horas depois, a descobrir que as forças contra quem devíamos disparar pertenciam à chamada contra-revolução e eram encabeçadas pelos Comandos de Jaime Neves e pelos Para-Quedistas, entre outros. Não vou aqui revelar o que é que eu e o meu colega combinámos fazer se o portão fosse abaixo, mas a nossa vontade de disparar era nula, até porque o poder de fogo de Jaime Neves faria ir a Berliet pelos ares num ápice. Além do mais, a Breda estava toda enferrujada e não sei há quantos anos não era usada. Felizmente não aconteceu nada. Mas isto mostra ao que a radicalização das ideias pode levar.
As duas datas que citei, fracturaram completamente as forças armadas e radicalizaram-nas entre esquerda e direita, mas também a sociedade civil na altura se radicalizou à volta disso e da unicidade sindical defendida pelo PCP e a unidade sindical defendida pelo PS. Foram grandes as manifestações contra e a favor de qualquer das opções. Acho que nunca vi em Portugal tão grandes e tão encarniçadas manifestações. A isto tudo, somou-se a luta e as enormes manifestações dos SUV ( Soldados Unidos Vencerão) contra o stato quo da hierarquia militar. Pelo meio, aconteceram algumas mortes. O País cindiu-se politicamente em dois.
Bem sei que o que observamos agora em Portugal  não tem nada a ver com o relato que aqui deixo, mas pode eventualmente explicar muito. As posições estão extremadas, e isso não vai seguramente ser bom para o país. Observo nas redes sociais, como o FB, muita gente a digladiar-se sobre quem é melhor para governar. Noto azedumes a virem ao de cima. Suspeições, acusações, até ofensas. Pessoalmente não irei alimentar essa fogueira, mas não posso, nem devo defender quem, ao longo dos últimos quatro anos empobreceu, em extremo, o país, indo "além da Troika". Um governo que em 2011 foi constituído com base em promessas eleitorais mentirosas, que obrigou perto de 400 mil pessoas a emigrar, que cortou salários, pensões, na saúde, na educação, nos cuidados à infância e aos idosos, aos mais desfavorecidos. Que ignorou a cultura e ostracizou a ciência, que esmagou a classe média com "um enorme aumento de impostos", taxas e taxinhas, que ultrapassou todas as linhas vermelhas que ele próprio traçou, que exponenciou uma divida pública que os portugueses das próximas gerações terão que pagar com língua de palmo ( e bem sei que não foram os únicos responsáveis, mas são responsáveis por terem feito o mesmo que outros ), que malbaratou o património empresarial nacional com privatizações que colocaram as nossas principais empresas nas mãos do estado chinês e da cleptocracia angolana, etc, etc e que, em resumo, pretendeu sempre governar à margem da constituição. Um governo que fez isto, não pode continuar a governar como se nada tivesse acontecido, ou como se a sua obra fosse digna de registo. Não! Se alguém acha que pode fazer melhor, deve governar, para julgar temos as eleições. Aprendi que radicalizar é uma coisa perigosa, mas também não acredito em papões saídos dos idos de 75, como os que agora se agitam por aí.
Jacinto Lourenço